terça-feira, 27 de abril de 2010

Constante procura

Dos passos que dou na vida
Metade procura você
E nessa constante procura
Vejo muito acontecer

Se acontece o que espero
agradecido a vida estou
Mas se nada acontece
Fortalece esse amor

Vejo em tudo a sua imagem
Nessa constante procura
Que de uma forma ou de outra
Me consola sem amargura.
(Severo Moreira)

Deus resolve qualquer problema, Por mais difícil que seja.

Deus é o todo de tudo e está em todo lugar tanto fora como dentro. Seja qual for o acontecimento, surgem problemas porque existe solução. Não há necessidade de se preocupar. Se não encontra a solução é porque lhe falta sabedoria. Se trouxer a sabedoria de Deus, qualquer problema será solucionado. Como fazer para trazer a sabedoria de Deus?
Basta entregar o problema a Deus. Deve entregar totalmente o “eu” a Deus. Deve orar da seguinte forma: “Ó Deus, a Vós confio totalmente este problema. Ó Deus Vós sois o amor infinito, a sabedoria infinita!
Seguramente solucionais este problema para a felicidade de todas as pessoas”


Livro: “Convite à Felicidade vol. 1”
(Dr. Masaharu Taniguchi)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Bispo acusado de agredir órfãos apresenta renúncia na Alemanha

22/04/2010 09h03

Walter Mixa negou as acusações, mas acabou confessando.
Agressões ocorreram durante as décadas de 1970 e 1980.

Da AFP, em Berlim

O bispo de Augsburg (sul da Alemanha), Walter Mixa, acusado de ter agredido no passado alunos de um orfanato católico, apresentou seu pedido renúncia em uma carta ao Papa Bento XVI, anunciou arcebispado.
"Com a renúncia, quer evitar outros prejuízos à Igreja e permitir uma renovação", afirma um comunicado do arcebispado de Augsburg.
"Sempre tive consciência de minhas próprias fragilidades em 40 anos de sacerdócio e 14 anos no serviço episcopal", declarou o bispo Mixa, citado no comunicado.
walter mixa 
O bispo alemão Walter Mixa em foto de 2 de março de 2009. (Foto: AP)

"Peço mais uma vez perdão a todos aqueles com os quais posso ter sido injusto e a todos aqueles aos quais provoquei problemas", acrescentou.
O bispo provocou uma grande polêmica na Alemanha depois da recente publicação na imprensa dos depoimentos de ex-alunos do orfanato católico de Schrobenhausen, que o acusaram de violências físicas nas décadas de 1970 e 1980, quando ele era padre na região.
Depois de ter negado em um primeiro momento as acusações, o bispo Mixa admitiu ter agredido os alunos no período e pediu desculpas.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Quem ama a Deus, ama também o semelhante.

Até conseguir a verdadeira fé religiosa, você não terá uma tranquilidade espiritual completa. Até perdoar de fato os semelhantes, não conseguirá a verdadeira tranquilidade espiritual. Se, apesar de orarmos fervorosamente e praticarmos Shinsokan, não conseguimos realizar os nossos desejos, é porque estamos odiando alguém e ainda não o perdoamos.
Amar a Deus não é outra coisa senão amar a divindade do próprio intimo. Para amar a divindade do nosso intimo, devemos ao mesmo tempo amar a divindade alojada no próximo. Isso porque Deus é o todo de tudo e em todas as coisas está o espírito de Deus. Dizer que ama a Deus, sem amar o próximo não passa de uma mentira.

Livro: “Convite à Felicidade vol. 1”
(Dr. Masaharu Taniguchi)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Bento XVI completa cinco anos à frente dos católicos sob a marca do escândalo

Tatiana Sabadini
Publicação: 19/04/2010 08:47

Papa chega para celebrar missa em Malta: vítimas de pedofilia se emocionaram no encontro - (ALBERTO PIZZOLI )

Papa chega para celebrar missa em Malta: vítimas de pedofilia se emocionaram no encontro
De joelhos e em silêncio, o papa Bento XVI rezou ontem em uma capela em Malta. Ao lado, oito jovens faziam o mesmo. Na viagem à ilha mediterrânea, reduto católico desde o tempo das cruzadas, o pontífice encontrou-se pela terceira vez com vítimas de abusos sexuais cometidos por religiosos. A conciliação parece ser o maior desafio de Joseph Ratzinger, que zelou como cardeal pela ortodoxia doutrinária da Igreja e hoje completa cinco anos como seu líder. De um lado, o pontífice é pressionado para assumir os erros e a expectativa por mudanças. Do outro, carrega o peso de uma tradição secular. Bento XVI celebra o aniversário de um pontificado conturbado pelos escândalos de pedofilia envolvendo padres e pela tensão com muçulmanos, judeus e cristãos anglicanos.

“Fiquei impressionado com a humildade do papa. Ele tomou para si o constrangimento causado pelos outros. Ele foi muito corajoso. Escutou-nos individualmente, rezou e chorou conosco”, contou à imprensa Lawrence Grech, uma das vítimas de abuso sexual em Malta. O jovem garantiu que não quer pedidos de perdão de Bento XVI. “Eu exigi desculpas antes porque estava enfurecido. Minha raiva desapareceu e estou satisfeito por ter encontrado o papa. Continuarei batalhando, não contra a Igreja, mas contra a pedofilia”, completou.

Depois da divulgação de uma série de casos de abuso nos Estados Unidos, na Austrália e na Irlanda, Bento XVI reagiu, ainda que de forma discreta. Pela primeira vez, um papa reconheceu a ocorrência de casos de pedofilia na Igreja e pediu perdão às vítimas. Uma carta de oito páginas quebrou a política do silêncio, aplicada durante décadas pelo Vaticano. “Ele demonstrou um grande senso de responsabilidade e colocou a culpa nos próprios ombros. A carta foi muito importante, porque ele teve a oportunidade de explicar bem os problemas do clero e a culpa dos bispos”, disse ao Correio Andrea Tornielli, vaticanista e autor da biografia Bento XVI — o guardião da fé.

Tímido e discreto, o pontífice não lota estádios nem conta com a simpatia do seu antecessor imediato, João Paulo II. Os desafios do pontificado, porém, não são os mesmos. Além do escândalo dos abusos sexuais, nesses cinco anos ele se viu envolvido em outras polêmicas (veja o quadro), como a legalização do aborto em países de tradição católica, o uso de preservativos para conter a Aids e o difícil diálogo com muçulmanos e judeus. “Não lembro de um pontificado da era moderna que tenha vivido uma crise maior. Tantas controvérsias acabaram por dividir os católicos, que sentem que a Igreja está dividida e não tem a mesma influência que existia com João Paulo II ”, reconhece o vaticanista Marco Politi.

Transição

Os especialistas acreditam que Bento XVI lidera a Igreja em uma fase de transições. E tenta equilibrar-se entre o conservadorismo e o mundo moderno. “A característica mais importante do seu pontificado é que ele não se considera um líder ou um chefe. É evidente que no Vaticano existem problemas administrativos, mas acredito que isso seja responsabilidade dos colaboradores do papa”, analisa Tornielli.
A cobrança de punição para os religiosos que cometeram abusos intensificou-se depois que começaram a vir à tona casos negligenciados pela Igreja durante décadas. Na carta divulgada há um mês, Bento XVI cobrou publicamente a participação do clero para que os problemas não se repitam, mas não indicou medidas para combater a pedofilia dentro da instituição. “Alimento a confiança de que os bispos se encontrem agora numa posição mais forte para levar adiante a tarefa de reparar as injustiças do passado e para enfrentar as temáticas mais amplas relacionadas com o abuso dos menores”, escreveu o papa.

Para Tornielli, não há sinais de que Bento XVI consiga fazer uma mudança substancial na doutrina da Igreja. “Não acredito que o pontificado de Bento XVI possa mudar a estrutura do clero ou da Igreja. Ele trabalha para mudar as atitudes humanas, para tentar o encontro entre o mistério e o sagrado da liturgia, para apresentar uma conexão entre a fé e a razão e reforçar a identidade dos cristãos”, conclui o biógrafo.

Três perguntas

» Andrea Tornielli é vaticanista, autor da biografia Bento XVI - o guardião da fé

Como o senhor analisa a forma como Bento XVI lida com as crises na Igreja?
Acredito que o papa mostra um grande senso de responsabilidade, porque, no caso dos bispos lefebvristas e de abuso sexual, ele colocou a culpa nos próprios ombros. A carta que escreveu para os católicos da Irlanda foi muito importante, porque ele teve a oportunidade de explicar bem os problemas do clero e a culpa dos bispos.

Quais as principais caraterísticas do papa como líder?
A chave para entender isso é lembrar o que ele mesmo disse em um discurso na Capela Sistina, um dia depois da sua eleição, em 2005: “O papa deve saber que representa a luz de Jesus Cristo, e não a sua própria luz”. Para mim, isso significa um grande senso de humildade e o conhecimento de um desafio importante para um protagonista como o líder da Igreja.

Bento XVI pode trazer mudança e modernidade na doutrina da Igreja?
Não acredito que o pontificado de Bento XVI possa mudar a estrutura do clero ou da Igreja. Ele trabalha para mudar as atitudes humanas, para tentar o encontro entre o mistério e o sagrado da liturgia, para apresentar uma conexão entre a fé e a razão e reforçar a identidade dos cristãos.


Papado controverso

Veja algumas das principais polêmicas que marcaram até aqui o pontificado de Bento XVI:


Nazismo
Durante peregrinação ao campo de extermínio de Auschwitz, em maio de 2006, o papa responsabilizou “um grupo de criminosos que abusaram do povo alemão” pelos crimes cometidos sob a ditadura nazista. A frase, dita por um alemão, foi vista por críticos como sinal de leniência. O assunto voltou à tona em dezembro passado, quando o pontífice proclamou “venerável” o antecessor Pio XII, questionado por ter silenciado sobre o Holocausto dos judeus.

Islã
Bento XVI proferiu conferência em Regensburg (Alemanha), onde foi professor, em setembro de 2006. Seu tema eram os laços entre fé e razão, mas incluiu citação de um imperador bizantino do século 12, relacionando o islã à violência.

Conversão de indígenas
Em visita ao Brasil, em maio de 2007, o pontífice silenciou sobre o genocídio dos indígenas e negou que as culturas pré-colombianas tenham sido anuladas pela imposição de matrizes europeias. Dez dias mais tarde, diante das reações negativas, lamentou “os sofrimentos e as injustiças” sofridas pelos índios.

Aborto
A caminho do Brasil, no avião, Bento XVI abonou as ameaças de extradição feitas por bispos contra políticos favoráveis à legalização do aborto. A afirmação causou mal-estar com o presidente Lula, que, embora condene o aborto “como indivíduo”, alega que, na condição de presidente, encara o assunto do ponto de vista “da saúde pública”.

Aids e preservativos
Em março de 2009, em viagem à África, o continente mais afetado pela epidemia, o papa declarou que “não se pode resolver o problema da Aids com a distribuição de preservativos”. Colheu reações negativas de líderes políticos e associações civis. 
Correio Braziliense

Perdoe a pessoa que o irrita.

Se dentro do seu coração existe algo que o deixa irritado, não ponha a
culpa nos demais, odiando ou tendo rancor. Enquanto você tiver ódio ou
rancor de outrem, continuará com o sentimento desagradável. Depois de
perdoarmos, sabendo que tudo parte de nós e volta a nós, devemos amar
o próximo. Ao conseguirmos amar a pessoa mais difícil de ser amada,
será provado se o nosso sentimento é um mero gostar ou o verdadeiro
amor.

Livro: “Convite à Felicidade vol. 1”

(Dr. Masaharu Taniguchi)

sábado, 17 de abril de 2010

Agradeça a todas as coisas do céu e da terra.


Frei Lourenço disse: “Sinto o amor de Deus ao passar uma panqueca na frigideira. Para que eu sinta o amor de Deus basta apanhar uma palha de arroz caída no chão”. “Quando for sentar-se”. Sobre um tronco caído, reverencie o tronco e sente-se. Quando for arrancar um rabanete, agradeça a ele e arranque! – esse era o
ensinamento do fundador da seita Konkô-ky. O sentimento de gratidão a um fio de palha de arroz ou a um rabanete, que são manifestações do amor de Deus, é um sentimento religioso. Aquele que procura a religião porque quer ganhar dinheiro, é um especulador. Dizem que o bonzo Hyakujyo foi atrás de uma folha de rabanete que ia sendo levada pela água e recolheu-a.
Se você acha a vida monótona e insignificante, é porque lhe falta amor. Se ama e faz tudo por amor, a alegria fluirá naturalmente e não sentirá monotonia nem insignificância. Se sente que o trabalho é fastidioso, é porque o faz por motivo financeiro, como se estivesse
vendendo em parcelas a sua força. “Deus, realizarei através deste trabalho o seu amor. Obrigado” – se trabalhasse assim, com gratidão, o trabalho nunca seria um peso aborrecido. Do egoísmo não nasce a verdadeira alegria. Somente onde se realiza o amor de Deus nasce a
verdadeira alegria.

Livro: “Convite à Felicidade vol. 1”
(Dr. Masaharu Taniguchi)

Papa Bento 16 chega a Malta, mas não comenta crise dos abusos sexuais

17/04/2010 15h53

Pontífice pode se encontrar com vítimas de padres do país europeu.
É a primeira viagem do papa desde que a crise se intensificou.

Do G1, com informações da AP

O papa Bento 16 começou neste sábado (17) uma peregrinação em Malta, país europeu que também foi atingido pela crise de acusações de pedofilia a padres católicos.
O papa não fez comentários sobre os escândalos de supostos abusos sexuais ao chegar a Malta. Essa viagem é a primeira para fora do Vaticano desde que a crise ganhou força.
Papa acena para fiéis do papamóvel em Valetta, Malta 
Papa acena para fiéis do papamóvel em Valetta, Malta (Foto: Antonio Calanni/AP)
Bento 16 tem sido acusado por grupos de vítimas de ter ajudado a acobertar padres pedófilos, quando era arcebispo na Alemanha e também na chefia do escritório de morais do Vaticano.
O presidente de Malta falou sobre o tema na chegada do papa ao país. "Seria errado, na minha visão, tentar usar as indiscrições de poucos para jogar uma sombra sobre a igreja como um todo. A Igreja Católica continua comprometida a proteger as crianças e todas as pessoas vulneráveis e a garantir que não haja esconderijo para aqueles que querem fazer o mal", disse o presidente George Abela.
Ele recomendou que a igreja e autoridades dos países trabalhem juntos para que haja mecanismos para punir casos de abuso.
Em Malta, dez homens testemunharam que foram molestados sexualmente por padres em um orfanato nos anos 1980 e 1990. Eles pediram para se encontrar com o papa para que esse "capítulo doloroso" de suas vidas, segundo eles, possa ser encerrado.
Os acusadores disseram que foram abusados por quatro padres católicos que os ameaçaram de expulsão do orfanato se eles resistissem aos avanços sexuais.
O papa não confirmou se vai se encontrar com as vítimas. Em outras ocasiões, encontros do papa com vítimas de abuso sexual, como aconteceram na Estados Unidos e na Austrália, não foram anunciados com antecedência.
O papa Bento 16 disse que o povo de Malta "tem razão de se orgulhar do papel indispensável que a fé católica teve em seu desenvolvimento".
O voo do papa a Malta foi um dos poucos a decolar do aeroporto de Roma neste sábado, onde diversos voos foram cancelados devido ao caos aéreo causado pela nuvem de cinza de um vulcão na Islândia.

A vida é como um tecido brocado.

Se compararmos a nossa vida à tecelagem, o homem seria o tecelão. Os fios verticais seriam a esperança, o ideal que atravessa toda a nossa vida. Os fios horizontais, que se cruzam com os verticais, correspondem aos acontecimentos que cruzamos na caminhada da nossa vida. Qualquer que seja o aspecto em que se apresentem os fios horizontais, os verticais os cruzam infalivelmente para formar o tecido e criarem variados e belos  desenhos. Quando assim pensamos, não temos necessidade de lamentar nem odiar coisa alguma, quaisquer que
sejam os acontecimentos que passem pela nossa vida. Todos os acontecimentos da vida constituem materiais para fazer da vida um lindo tecido.

Livro: “Convite à Felicidade vol. 1”

(Dr. Masaharu Taniguchi)

Amanhã, um sentimento

Hoje é o ontem que o amanhã sonhou
sendo assim, é o dia "D" da revolução
da inércia da alma e do coração
porque hoje é o amanhã que o ontem falou

Não podemos aguardar um amanhã vindouro
se este, faz-se ontem, ao tocar da hora
o futuro da vida já começa agora
e a areia do tempo logo será ouro.

A certeza que a noite vem no fim do dia
é a força necessária ao atrevimento
de buscar no agora, a felicidade.

E o futuro se faz por essa vontade
o amanhã não é mais que um sentimento
de fazer deste hoje, nossa utopia.
(Josué Dantas)

Egoamor

Eu te amo;
Mas não quero te ver
E se precisar de você
Eu te chamo!

Mas, se não precisar
Não te ligo
Pois eu sou seu amar
Não seu amigo!

Eu te amo de todo coração
Pra minha necessidade e atenção
Não para teu prazer, ou teu abrigo.

Eu te amo, mas não faças nenhuma projeção
Meu amor é concreto, é razão
Te amo quase tanto o meu umbigo.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Louve o seu corpo.

Se você ama seu corpo e deseja que ele seja saudável, não deve
queixar-se. Deve agradecer ao corpo, louvar a sua beleza e abençoar a
sua saúde. Talvez alguém pense: ”Como vou louvar um corpo tão
doentio?” Mas em seu corpo há sempre alguma parte que está saudável.
Mesmo que sofra dos pulmões, seus olhos devem enxergar bem, os ouvidos
escutarem bem, e os membros perfeitos. Então, porque não louva,
abençoa e agradecemos a esses ouvidos e membros? Quando realmente
agradecer as dádivas de Deus, os pulmões serão curados.

Livro: “Convite à Felicidade vol. 1”
(Dr. Masaharu Taniguchi)

Amor impossível

Não sei se ainda preciso
Não sei se te quero assim
É belo esse seu sorriso
Meiguice olhando pra mim

Preciso que entenda isso
Te amo e não posso falar
É triste ter que ficar calado
Por você não poder me amar

Talvez algum dia haja esse encontro
Em qualquer esquina da vida
Quando menos a gente espera
Do impossível vem a saída
(Severo Moreira)

Uma passagem pelo mosteiro

Amálgama
 

por Fernando da Mota Lima – A leitura de um artigo de Christopher Hitchens – “The Pope is not above the law“, conferir tradução de Daniel Lopes no Amálgama – lembrou-me minha remota passagem pelo mosteiro de São Bento, Olinda, no início dos anos 1970. Embora já afastado de minha formação católica, que foi de resto muito permissiva, tinha e continuei tendo grandes amigos religiosos, não apenas católicos, ao longo da vida. Dentro de minhas convicções liberais e radicalmente individualistas, procurei sempre respeitar a liberdade de religião e credo em geral, contanto que fundados em valores de tolerância e respeito pelos direitos humanos, com perdão da fórmula abstrata.
A leitura de alguns iluministas, sobretudo o anticlerical Voltaire, de Bertrand Russell e da cultura marxista da época afastaram-me por completo da religião. Essas marcas do meu passado intelectual reforçam o apreço que tenho hoje pelo combate antirreligioso travado por cientistas como Richard Dawkins, por Christopher Hitchens e, falando da prata da casa, Daniel Lopes.
Fui levado ao mosteiro de São Bento por um amigo cuja coerência religiosa muito admirava. Admitido no mosteiro para viver a semana santa em estado de voluntária reclusão e penitência, obteve junto à abadia autorização para levar-me como acompanhante (favor não confundir o termo com o sentido que os sites pornô lhe emprestam no presente). Confesso haver seguido meu amigo com altas e líricas expectativas. Tinha enorme desejo de conhecer a famosa biblioteca do mosteiro. Além disso, era então leitor apaixonado de Hermann Hesse, que me perturbou a imaginação romântica com obras como Sidarta e Narciso e Goldmund.
Fui muito bem acolhido no mosteiro. Mal cheguei, o irmão hospedeiro surpreendeu-me ao me ceder o quarto de hóspedes em caráter exclusivo, enquanto meu amigo ficou recolhido em outro bem mais modesto. E logo as coisas começaram a desandar. Encurtando a história ao ponto de suprimir todos os detalhes embaraçosos, fui tão assediado sexualmente no decorrer de algumas horas que prontamente pedi socorro a meu amigo. Quando a história chegou ao conhecimento do irmão hospedeiro, este procurou-me visivelmente constrangido, pediu-me para não considerar casos excepcionais como prática normal dentro da instituição e logo providenciou minha transferência para o quarto do meu amigo, onde afinal me senti a salvo das tentações movidas contra minha carne. Como hoje diria Severo Machado, ressoando palavras de Boris Pasternak e Luciano Oliveira, a carne é forte até dentro das santas paredes dos mosteiros.
Na manhã seguinte, reunidos no refeitório, onde me impressionaram o excesso de comida e a voracidade de alguns monges em plena semana santa, nenhum dos que me assediaram na véspera sequer ousava olhar para mim. Em paz comigo, também com a bela paisagem histórica de Olinda, então isenta do batuque e da violência hoje correntes, refugiei-me na biblioteca. Foi lá que pela primeira vez encontrei a edição integral da obra de Freud e comecei erraticamente lendo-a. O fato logo desagradou ao irmão hospedeiro, cujo generoso acolhimento acima louvado encobria uma intenção que muito me incomoda: a bondade e a suposta compreensão praticadas com propósitos de conversão. Noutras palavras, a intenção dele era converter-me, ou reconverter-me. O fato de reiteradamente surpreender-me com um volume de Freud nas mãos o contrariou, e logo passou da contrariedade à crítica impaciente.
Conversei livremente na biblioteca e no pátio com alguns noviços durante meu retiro no mosteiro. Dois claramente sofriam dramas morais decorrentes de homossexualidade reprimida. Ambos admitiram haver optado pela conversão à ordem regular movidos antes pelo desejo de suprimir suas tendências “pecaminosas” do que pelo apelo da fé. Apesar de então agnóstico (hoje sou ateu), chocaram-me as evidências rotineiras de futilidade e fuga negativa do mundo a que assisti durante minha passagem pelo mosteiro. Jovens privados de autênticos ideais espirituais ou intelectuais dissipavam sua vida de reclusão ouvindo lixo cultural com o ouvido colado ao radinho de pilha. A biblioteca, que tanto me encantou e revelou tesouros largados à poeira do tempo, vivia entregue ao abandono. Apenas um velho monge, de origem belga, dela cuidava catalogando zelosamente milhares de volumes e documentos que aparentemente a ninguém interessavam.
Se à volta de 1970 as coisas dentro da ordem regular já eram assim, o que dizer hoje, dentro e fora dos mosteiros? Tenho um jovem amigo, um dos melhores indivíduos que conheço, que certo dia cotejou sua experiência de interno num seminário católico com minha passagem pelo mosteiro acima condensada. O que mudou para pior, em tudo que se possa conceber, salta aos olhos de quem tenha a coragem e a honestidade de mantê-los abertos.
A verdade é que a Igreja católica teima hipocritamente em vedar o sol com a peneira. Não sou cristão, muito menos teólogo ou autoridade religiosa, para propor qualquer solução. Sei apenas, no que sigo a lição de Freud, que somos movidos por pulsões incivilizáveis. Ou algo que seria nosso cerne biológico indomável pela civilização. Aludiria, mais claramente, ao sexo, ou à fortaleza da carne, que desafiou sempre com astúcia e energia irrefreáveis todas as interdições impostas pela cultura, a religião, os códigos penais etc. É perda de tempo tentar suprimi-la. Tudo que podemos, e é o melhor que podemos, é elevá-la a formas de sublimação patentes na história da arte, da literatura, da própria religião, das forças humanas mais civilizadoras compreendidas no sentido positivo do termo. Noutros termos, nossas pulsões incivilizáveis podem ser parcialmente controladas, parcialmente convertidas em força sublimadora da destrutividade humana, mas nunca suprimidas.
O problema é que as forças civilizadoras do Ocidente estão reduzidas a bandalhos. A irrelevância normativa do catolicismo, assim como da religião em geral, salta novamente aos olhos de quem tenha a coragem de abri-los. Religião tornou-se antes de tudo investimento, show business, como diria um executivo da Globo, ou um pastor bem sucedido no mercado da fé. O maior espetáculo midiático da semana santa, sediado em Nova Jerusalém, Pernambuco, neste ano contratou a atriz Suzana Vieira para interpretar Maria, mãe de Jesus, símbolo milenar da castidade e das virtudes femininas pregadas pelo catolicismo. No comments.
Um ladrão roubou uma igreja em São José dos Campos e se apropriou até da cabeleira que adornava a imagem do Cristo. Não bastasse tanto, levou o sacrilégio ao extremo de roubar todo o estoque de hóstias da igreja, que assim ficou privada de meios para prestar serviços de confissão e comunhão durante a semana santa. No Maranhão, medidas adotadas contra roubo, depredação e sacrilégio reduzem igrejas a autênticas penitenciárias ou fortalezas. Deus é fiel? E nós, a que somos fiéis?
—–
Na abertura do post: Mosteiro de São Bento (PE)

O mais anticristão dos agnósticos

Amálgama

por Daniel Lopes – Se você não conhece Bertrand Russell (1872-1970), é capaz de achar que o lançamento de Por que não sou cristão (L&PM, 2008) não passa de mais uma gota no mar de traduções recentes que apresentaram ao público brasileiro pensadores ateus relevantes, como Cristopher Hitchens, e banais, como Sam Harris, pra não falar da ressurreição de Nietzsche. O que não é verdade.
A começar pelo posicionamento do autor – agnóstico, e não ateu – e pela concepção do livro. Publicado originalmente em 1957, não é uma obra homogênea pensada para atacar a religião. Trata-se da reunião de textos e discursos de Russell publicados e proferidos ao longo de vários anos, e que abordam tanto a fé cristã (especificamente, a católica) quanto temas mais “amenos” – como a liberdade de expressão – e outros nem tanto, mas que ainda assim não se apresentam como um ataque direto à crença em Deus – como os direitos sexuais, inclusive dos jovens.
Neste último aspecto, sou tentado a comparar as idéias de Russell com as de seu contemporâneo Wilhelm Reich, famoso psiquiatra alemão que publicou A função do orgasmo (1927) e A revolução sexual (1936), entre outros. Em um texto de Por que não sou cristão, “Será que a religião fez contribuições úteis para a civilização?”, de 1930, o prêmio Nobel inglês defende que “não existe embasamento racional algum para manter uma criança ignorante a respeito de qualquer coisa que ela deseje saber, seja sobre sexo ou qualquer outro assunto”. Outro artigo, “Nossa ética sexual”, data de 1936.
Para além da educação sexual na infância e na juventude, Russell também se antecipou à sua época ao analisar os benefícios de políticas públicas que visassem a propagação de métodos anticoncepcionais. Quanto às jovens, “é indesejável, tanto psicológica quanto educacionalmente, que as mulheres tenham filhos antes dos vinte anos. Nossa ética deve, portanto, ser tal que torne rara essa ocorrência”; já em relação aos jovens, “não é nem provável que eles vão permanecer castos no período dos vinte aos trinta anos, nem psicologicamente desejável que o façam”.
Ao defender uma vida sexual ativa para ambos os sexos, Russell mirava a prostituição, que considerava abominável, e o casamento como um negócio, onde a mulher troca seu dote físico por uma confortável vida financeira ao lado do marido. Contra essa pervertida moral puritana, o filósofo tinha uma frase lapidar: “o sexo, mesmo quando abençoado pela Igreja, não deveria ser uma profissão”.
Como seria quase impossível de não acontecer, alguns textos de Por que não sou cristão caem na armadilha da qual, em um momento ou outro, poucos propagandistas do secularismo escapam, a saber, o cientificismo, ou a ciência como panacéia. Assim, a pouco menos de uma década do início da carnificina que seria a Segunda Guerra, encontramos Russell escrevendo que “os preceitos religiosos datam de uma época em que os homens eram mais cruéis do que são e, portanto, têm a tendência de perpetuar atrocidades que a consciência moral desta época, de outro modo, superaria”; ou que “com a técnica industrial que temos hoje, poderemos, se assim desejarmos, fornecer subsistência tolerável para todos”.
É bem verdade que esse “se assim desejarmos” salva o autor da infelicidade total, mas de qualquer forma é impressionante que alguém com tanto espírito e visão tivesse caído na conversa da tecnologia como garantia para uma moral mais avançada que a das gerações anteriores. Raciocínio que subestima a capacidade que líderes e cientistas nacionalistas ou racistas têm de convencerem autoridades e hordas religiosas da importância de uma expansão territorial ou uma limpeza étnica.
Sim, mas… e o cristianismo, onde entra?
Calma. Você que pensa em comprar o livro porque se interessou pelo título também não vai sair de mãos abanando desta resenha.
A ironia, meus amigos e minhas amigas, é uma coisa muito útil, não é verdade? A ironia, a graciosidade, a leveza, a objetividade do texto. Sisudez por sisudez, por que alguém preferiria um inimigo da religião a um religioso ortodoxo? Então, eu provavelmente não estaria desperdiçando meu tempo (nem o de vocês) se o livro do senhor Russell não tivesse lá, junto com a gama de indignação e seriedade, alguma graça.
Exemplificaremos bem o tipo de ataque à fé cristã por parte de Russell se citarmos que ele considera o próprio Cristo um sujeito com momentos dignos (principalmente quando pregava), mas longe de ser um modelo de comportamento (principalmente quando agia). Ou seja, toda a Igreja Católica (e por extensão a fé cristã) teria sido erguida em nome de um homem dito santo, mas, na verdade, nem pior nem melhor que a média do resto dos humanos.
Estou me segurando pra não soltar o lugar-comum mais surrado que baú velho que diz ser direito de cada um acreditar que Cristo foi um homem santo – ou não. Mas que tal atentar para algumas passagens das Escrituras, como aquela em que Jesus se dirige à mãe secamente com um “mulher, que tenho eu contigo?” (João, 2:4). E a neurose que fazia esse pregador oriental (a exemplo de muitos outros) se sentir o centro do mundo? Em nome dessa megalomania, o Filho chegou mesmo a atentar contra a instituição família: “(…) vim separar o filho do seu pai, e a filha da sua mãe, e a nora da sua sogra. (…) O que ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10:35-37). E olha que aqueles que relatam essas e outras pérolas, os discípulos, o fazem de uma perspectiva benevolente.
Ou seja, Russell não é cristão, antes de tudo, porque se trata de uma crença baseada numa fraude, num homem-fraude, muito inferior a Buda ou a Sócrates – este último fazia a besteira de ouvir com respeito aqueles que discordavam de suas idéias, ao passo em que Jesus bradava aos que não eram muito fãs de suas pregações: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação ao inferno?”
Começando mal, a Igreja ao longo do tempo foi se tornando pior ainda (pelo menos até tempos recentes, quando foi obrigada a se ajustar ao ambiente de bom senso trazido por alguns protestantes e secularistas). Para comprovar, basta ver o tipo de gente que ela sempre elege para santo. Escreve Russell, bem a seu estilo:
A Igreja nunca consideraria um homem santo por ter reformado as finanças, ou as leis criminais, ou o judiciário. Tais contribuições simples ao bem-estar humano eram consideradas sem importância. Não acredito que haja em todo o calendário um único santo cuja santidade esteja relacionada à utilidade pública.
É digno de nota, ainda, o apêndice de Por que não sou cristão, que lembra em detalhes repulsivos como foi o processo que, no início da década de 40, proibiu Russell de lecionar na Faculdade Municipal de Nova York. A acusação foi, basicamente, de que o despudorado inglês corrompia a juventude.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Chico Xavier foi Ruth-Céline Japhet

Em 2001, inspirado em ideia do meu amigo Hermínio Corrêa de Miranda (no cap. 13 do Eu Sou Camille Desmoulins), iniciei a produção da obra Quem foi Quem, sequenciando cerca de mil e quinhentas reencarnações e perto de setecentas entradas. Compendiei revelações de obras confiáveis, entre clássicas, mediúnicas e de estudiosos sérios do Espiritismo, além de alguns casos de tradição consagrada e bem aceita. Hoje, terminado o trabalho mais pesado, devo dizer que dois terços do livro foram completados por meu filho Luciano dos Anjos Filho, bem assim por algumas outras colaborações de membros do Grupo dos Oito, como o Pedro Miguel Calicchio (já desencarnado), a Viviane Albuquerque Calicchio e o Jorge Pereira Braga. Certos percalços de saúde atrasaram bastante o arremate, mas eis que estamos agora na revisão final. É um repositório de fôlego, com breves biografias de cada personagem, sem faltar a fonte em que nos baseamos.

Pois desde aquela época, bem antes de avolumar-se a poluição dessa língua negra vocalizadora de que Chico Xavier é Allan Kardec, ali já estava inserido o verbete Francisco Cândido Xavier nos seguintes registros cronológicos, alguns nomes anotados nos primórdios da década de 60):

Hatshepsut, rainha faraó (séc. XV a.C.) - Hebreia no Egito (entre o séc. XVIII a.C. e o séc. XIV a.C.) - Judia em Canaã (c. séc. XIII ou posterior) - cidadã grega (c. 600 a.C., séc. VII a.C.) – Chams, princesa (século VI a.C.) - cidadã síria (período a.C. até d.C.) – cidadã cartaginense (entre os séc. X a.C. e séc. II a.C.) – Flávia Lêntulus (séc. I) – Lívia (séc. III) – Joana, a Louca (1479-1555) – Verdun, abadessa (séc. XVI) – Jeanne d’Alencourt (séc. XVIII) – Ruth-Céline Japhet (1837) / Dolores del Sarte Hurquesa Hernandez (séc. XIX) - Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier (1910-2002)

Por volta de 1999, enviei para o Chico e, em 2008, também para o Divaldo Pereira Franco, o verbete de cada qual, pedindo-lhes que, se fosse o caso, me indicassem algum reparo aconselhável. Nenhum dos dois se opôs a nada.

A reencarnação do Chico como sendo a Ruth-Céline Japhet me havia sido repassada desde 4.8.1967, quando o Abelardo Idalgo Magalhães esteve com o médium em Uberaba e, lado a lado, foi anotando as vidas pregressas do Chico personificadas nos romances de Emmanuel.

Arnaldo Rocha é reconhecidamente espírita sério, honesto, de inatacável probidade

Tenho esse quadro comigo até hoje com a assinatura do Abelardo. A Ruth-Céline não aparece porque não foi personagem de nenhum dos romances, mas o Abelardo também falou dela, a meu pedido, e recebeu a confirmação. Eu já sabia desde aquela década, em mero exercício especulativo. Essa mesma confirmação o Divaldo Pereira Franco ouviu diretamente do Chico, que tinha acabado de chegar de Paris, onde visitara o túmulo do Codificador. Ainda mais. Muitos anos antes, foi o mesmo Chico quem fizera igual revelação para um dos seus maiores amigos e confidentes, o Arnaldo Rocha, marido da Meimei, esse Espírito maravilhoso que nos ditou mensagens de elevado teor evangélico.

Destaco como importante que, de todos os que andam por aí se jactando de terem ouvido declarações do Chico, ou tirando conclusões por conta própria de que ele era Allan Kardec, nenhum deles viveu a intimidade vivida pelo Arnaldo Rocha. E, ainda este ano, quando mais uma vez esteve aqui em minha residência, o Arnaldo voltou a me afirmar que o Chico era a Ruth-Céline Japhet. Também há pouco menos de um mês, no programa da Globo News em homenagem ao centenário do Chico, ele retomou o assunto e, em resposta a pergunta que lhe foi feita, falou, até com certo enfado, que não passa de bobagem essa ideia de que Chico Xavier era Allan Kardec. Anote-se que o Arnaldo Rocha é reconhecidamente espírita sério, honesto, de inatacável probidade. Ninguém, absolutamente ninguém, no momento, tem mais autoridade do que ele para colocar um ponto final nessa ficção que o bom senso e o conhecimento da doutrina espírita deveriam de há muito ter inumado.

Já em agosto do ano passado, em entrevista concedida ao site “Espiritismobh”, o Arnaldo havia divulgado que, num diálogo acontecido em 1946, o Chico lhe revelara que era a reencarnação da Ruth-Céline. O Arnaldo só não incluiu essa revelação no livro Chico – Diálogos e Recordações, de autoria do Carlos Alberto Braga, porque, transcorridos tantos anos daquele diálogo, ficou em dúvida se se tratava da Céline Japhet ou da outra médium de Kardec, que ele supunha chamar-se Céline Baudin. Na verdade, essa outra se chamava Caroline Baudin. Posteriormente, o Arnaldo dirimiu a dúvida, conforme relatou em entrevista mais recente, divulgada no mesmo site. “Tive a oportunidade de ir ao Rio encontrar um amigo muito querido, Luciano dos Anjos. Questionado por que não coloquei a história da Ruth-Céline Japhet no livro, respondi que fiquei muito em dúvida com os nomes, pois sabia da existência das duas Celines. Ele então me respondeu que a médium auxiliar de Kardec era a Ruth-Céline Japhet, judia e desencarnada em 1885.”

A personalidade de Francisco Cândido Xavier nunca teve nada a ver com a do Codificador

Conversamos, sim, sobre o livro. Ele me expôs as razões e eu lhe expliquei que apenas a Japhet se chamava Céline e que, portanto, era a ela que o Chico se referira. Não existiu uma Céline Baudin. Mesmo porque, eu também já tinha essa informação desde há muito tempo e lhe pedira que aguardasse alguns detalhes que eu lhe passaria. Apenas questão de datas, pois o Arnaldo já sabia de tudo.

Ultimamente tem crescido esse movimento que vem fecundando a biografia do Chico com o radicalismo de ideias canonizantes. A personalidade de Francisco Cândido Xavier nunca teve nada, nada a ver com a do Codificador. E o próprio Chico ressaltou essa diferença, em declaração publicada no Diário da Manhã, de Goiás, de 28.8.1998, e que me dispus a propalar pela internet, em nota de 29.3.2010. Chico Xavier, como vimos aqui, no início desta matéria, tem sido sempre mulher. E, diga-se, nesta última vida de médium, foi uma grande mulher, com sentimentos que mostraram ao mundo o valor de saber ser mulher num corpo masculino. Isso é muito difícil, mas o Chico, nesse particular, foi um vitorioso, vencendo tendências naturais que lhe poderiam ter arrastado ao fracasso da missão.

Nesse entrecho, tem acontecido até anedota de humor despudorado. Médica espírita de São Paulo publicou artigo na Folha Espírita, alegando que o Chico não se casou da mesma forma que também Allan Kardec não viveu maritalmente com Amélie Boudet. Teria existido entre o casal apenas um amor platônico, daí não terem tido filhos (?!). A que delirante paroxismo chegamos. Vale tudo para colocar Kardec como santo católico, na mesma vestalidade das fêmeas mais pulcras. Ora, convenhamos: para estar a par de uma intimidade tão grande entre os dois só se admitindo – concluem os piadistas – que a doutora é a Amélie Boudet reencarnada. E já não duvido de que ela venha a público fazer essa fantástica confissão de identidade. A essa altura, espero por qualquer esquizofrenia.

Voltarei ainda à figura de Francisco Cândido Xavier. Por agora, vamos conhecer melhor Ruth-Céline Japhet, sobre quem, aliás, Allan Kardec nos deixou muito poucas informações, o que, de resto, também o fez em relação aos demais médiuns que participaram do preparo de O Livro dos Espíritos. Esclareceu ele que assim agiu para evitar exatamente o que hoje vêm fazendo com Francisco Cândido Xavier, que até procissão pelas ruas de Pedro Leopoldo já ganhou. Tem mais. Já há gente fazendo-lhe romaria ao túmulo para recolher lágrimas que “surgem” dos olhos do busto de bronze. Na continuidade do show carismático, acaba de ser produzido um hino a Chico Xavier, cuja letra, diga-se, é desoladoramente trash. Mas nada estará perdido. Talvez sirva para acompanhamento nas novenas, que com certeza surgirão.

A infância de Ruth-Céline Japhet lembra os infortúnios de Chico Xavier, tal a luta que empreendeu

É por isso que creio já ser hora tardia de resgatar da vulgaridade essa atual febre de negativa propaganda do Espiritismo.

Ruth-Céline Japhet na realidade se chamava Ruth-Céline Bequet. O sobriquet Japhet ela o adotou para identificar-se como sonâmbula profissional. Reencarnou em 1837, na província de Paris, cujo local exato não consegui localizar. No ano de 1841, ainda morava por lá, com os pais, quando ficou gravemente doente, impedida de caminhar. Sua infância lembra os infortúnios de Chico Xavier, tal a luta que empreendeu pela saúde combalida. Era médium desde pequena, mas só por volta dos 12 anos começou a distinguir a realidade entre este mundo e o espiritual. Na infância, confundia os dois. Acamada por mais de dois anos, foi um magnetizador chamado Ricard quem constatou que ela era médium (sonâmbula, na designação da época), colocando-a em transe pela primeira vez. Mas não fizeram mais do que três sessões. Impaciente com a ineficácia dos remédios que tomava para recuperar os movimentos das pernas, seu irmão resolveu, por conta própria, magnetizá-la, assim tentando durante seis semanas seguidas. O resultado foi fantástico. Ela conseguiu levantar-se e voltou a caminhar com o auxílio de muletas. Nessas condições assim ficou por quase um ano (onze meses), depois do que, afinal, pôde dispensar as muletas, claudicando embora.

Em 1845, quando ainda tinha 8 anos, a família, empolgada pelos resultados obtidos com os passes magnéticos, resolveu seguir para Paris, à procura do magnetizador Ricard, aquele que houvera feito com Ruth-Céline as primeiras experiências. Então ele a levou ao colega Millet, em cuja residência acabou conhecendo outro magnetizador famoso, o sr. Roustan (não confundir com o grande missionário Roustaing), que estudava o magnetismo de cura desde 1840. Ele morava na rue Tiquetone nº 14 e negociava com joias, na rue des Martyrs nº 19 (outras referências indicam o nº 46).

Foi a partir desse contato e diante de todos os benefícios amealhados, que ela assumiu a condição de sonâmbula profissional (médium profissional), sob o controle de Roustan. E passou a adotar o nome de Ruth-Céline Japhet (srta. Japhet).

Explique-se que, naquela época, e até mesmo hoje, em países como os Estados Unidos, a Inglaterra e a própria França, só existiam médiuns remunerados e era comum a adoção de “nomes de guerra”. Ainda estava por surgir a doutrina espírita. Transformado em febre na Europa, o Espiritismo se constituía apenas em bases fenomênicas, importado não há muito da América. Allan Kardec é quem vai dar um novo rumo ao seu desenvolvimento prático, acrescentando-lhe o principal, isto é, conteúdo sério e sentido moral.

A partir da primavera de 1851, as sessões ocorriam duas vezes por semana, sob a direção do sr. Japhet

Daí que, como não poderia deixar de acontecer – e veremos isso adiante –, Allan Kardec não pôde exonerar-se de algumas divergências com suas médiuns, em especial a principal do grupo, srta. Ruth-Céline Japhet.

Ela permaneceu atendendo ao seu público durante quase três anos seguidos, dando consultas médicas que lhe eram transmitidas por Samuel Hahnemann, fundador da homeopatia, Anton Mesmer, fundador do mesmerismo, e por seu próprio avô. Também lhe apareciam, ditando mensagens de orientação, Teresa d’Ávila e outros benfeitores espirituais.

Sigamos a cronologia. Roustan levou-a, em 1849, para uma sessão no palácio do conde d’Ourche, em Vincennes. Estavam presentes: o conde e a condessa d’Ourche, o barão Louis de Guldenstubbé (possuo sua obra em minha biblioteca) e sua irmã Sônia, o casal De Lagia, o filósofo holandês barão Tiedeman-Marthèse, o sr. e a sra. Roustan, e o sr. Japhet, pai de Ruth-Céline. Funcionou como médium Mme. Abnour, que havia acabado de retornar da América e estava mais familiarizada com os fenômenos de magnetismo. Ruth-Céline, com 12 anos, era a mais jovem dos presentes. Ao término dos trabalhos, Mme. Abnour aproveitou aquele encontro para convidar Guldenstubbé, Roustan e a Ruth-Céline para formar um grupo particular que, com mais a integração de Abbé Chatel e das três demoiselles Bauvais, passaram a se reunir na casa onde então morava o sr. Japhet e sua filha, na rue des Martyrs nº 46. Ao todo eram nove pessoas.

A partir da primavera de 1851, as sessões aconteciam duas vezes por semana, sob a direção do sr. Japhet, que era médium intuitivo, e com Roustan prosseguindo no auxílio médico-espiritual à srta Japhet, cuja saúde, em geral, continuava sempre bastante precária. Ela mesma funcionou ali mediunicamente desde 1851 até 1857, ou seja, dos 14 aos 20 anos.

No ano de 1855, participavam das reuniões: Tierry, Taillandier, Tillman, Ramón De la Sagia, Victorien Sardou e seu filho, o casal Roustan e, naturalmente, o sr. Japhet, a essa altura já viúvo, e a filha Ruth-Céline. Outra importante presença era Adèle Maginot, a médium principal de Alphonse Cahagnet, o maior magnetizador da época. Com ele, praticamente todos os magnetizadores de então iniciaram o aprendizado, inclusive Roustan. Pois bem, Roustan considerava Ruth-Céline médium superior a Adèle Maginot.

Essas sessões copiavam o modelo norte-americano trazido por Mme. Abnour: Ruth-Céline ficava no centro do salão rodeada pelos demais participantes, com as cadeiras em forma de ferradura. Os Espíritos se valiam da tiptologia e, às vezes, da psicofonia. Assim aconteceu e se estendeu até meados de 1864, bem depois de já haver sido lançado O Livro dos Espíritos.

No dia 1º de agosto de 1855, Kardec foi levado a participar das sessões em casa do sr. Baudin

As comunicações recebidas eram consideradas por todos como excelentes, de alto valor instrutivo.

Em 8 de maio de 1855, Allan Kardec assistiu pela primeira vez a uma sessão de Espiritismo (mesas girantes), na residência da sra. Plainemaison, na rue Grange-Batêlier nº 18. Ali conheceu o sr. Japhet e sua filha Ruth-Céline. Ele era guarda-livros (espécie de contador) em casas comerciais.

Victorien Sardou tinha o seu próprio grupo de magnetizadores e há cinco anos vinha frequentando as sessões em casa do sr. Roustan, na rue Tiquetone nº 14. Ele é quem teria passado para Allan Kardec os cinquenta cadernos com as anotações dos Espíritos, ponto de partida de O Livro dos Espíritos. Segundo outras fontes, Carlotti, velho amigo do professor Rivail e que também integrava o grupo, é quem teria repassado os cadernos. Frequentavam essas sessões: Victorien Sardou e seu pai, o professor e lexicógrafo Antoine Leandre Sardou; o futuro acadêmico Saint-Renné Taillandier; o livreiro e editor Pierre-Paul Didier; Tiedeman-Marthèse; e outros.

Naquele exato ano, no dia 1º de agosto de 1855, Allan Kardec é levado a participar das sessões em casa do sr. Baudin, cujas filhas Caroline e Julie atuavam como médiuns, na rue Rochechouart nº 7. A primeira reunião com a presença de Kardec realizou-se numa quarta-feira. Baudin era fazendeiro, cultivava cana-de-açúcar, na ilha da Reunião, território francês no oceano Índico. Nos primeiros momentos, o Codificador quase abandona tudo, dada a frivolidade das sessões. Mas ele mesmo dá novo rumo às reuniões e ali tem início o esboço de O Livro dos Espíritos, seguido da confecção de grande parte da obra. Baudin mudou-se depois para a rue Lamartine nº 32. Ainda em 1855, Allan Kardec é levado por seu amigo Victorien Sardou (outras fontes dizem que o convite partiu do sr. Leclerc) à casa do sr. Japhet, cuja filha contava 18 anos.

Em 1856, Allan Kardec começou a frequentar também as sessões em casa do sr. Roustan, na rue Tiquetone nº 14, onde Ruth-Céline psicografava com a cesta de bico (corbeille-toupie). Durante certo tempo, participou das reuniões nas casas do sr. Roustan e do sr. Japhet. Ruth-Céline Japhet era sempre a médium principal, havendo Allan Kardec assegurado que essas reuniões “eram sérias e se realizavam com ordem”. Tanto mais que ali se manifestou, pela primeira vez, o Espírito da Verdade.
Luciano dos Anjos
http://www.forumespirita.net


A verdadeira simplicidade e grandeza da santidade

Receita do Papa para ser santo: Eucaristia, oração, caridade

CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 13 de abril de 2011 (ZENIT.org) – O Papa Bento XVI disse hoje, diante dos peregrinos reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral, que a santidade é algo simples e acessível a todos: viver a vida cristã.

Concretamente, ele salientou que o essencial é ir à Missa aos domingos, rezar todos os dias e tentar viver de acordo com a vontade de Deus, isto é, amando os outros.

O Santo Padre quis dedicar o encontro de hoje a refletir sobre a realidade da santidade, encerrando assim um ciclo sobre histórias de santos, que começou há dois anos e no qual percorreu as biografias de teólogos, escritores, fundadores e doutores da Igreja.

Em sua meditação, o Pontífice sublinhou que a santidade não é algo que o homem pode alcançar pelas suas forças, mas que vem pela graça de Deus.

“Uma vida santa não é primariamente o resultado dos nossos esforços, das nossas ações, porque é Deus, três vezes Santo (cf. Is 6, 3), que nos torna santos, e a ação do Espírito Santo, que nos anima a partir do nosso inteiro, é a própria vida de Cristo Ressuscitado, que se comunicou a nós e que nos transforma”, explicou.

A santidade, afirmou, “tem sua raiz principal da graça batismal, no ser introduzidos no mistério pascal de Cristo, com o qual Ele nos dá seu Espírito, sua vida de Ressuscitado”.

No entanto, acrescentou, Deus “sempre respeita a nossa liberdade e pede que aceitemos este dom e vivamos as exigências que ele comporta; pede que nos deixemos transformar pela ação do Espírito Santo, conformando a nossa vontade com a vontade de Deus”.

Partindo da premissa de que o amor de Deus já nos foi dado pelo Batismo, agora se trata, segundo Bento XVI, de “fazê-lo frutificar”.

“Para que a caridade, como uma boa semente, cresça na alma e nos frutifique, todo fiel deve ouvir a Palavra de Deus voluntariamente e, com a ajuda da sua graça, realizar as obras de sua vontade, participar frequentemente dos sacramentos, especialmente da Eucaristia e da liturgia sagrada, aproximar-se constantemente da oração, da abnegação, do serviço ativo aos irmãos e do exercício de todas as virtudes”, explicou.

Longe da linguagem solene, o Papa propôs “ir ao essencial”, resumindo a santidade em três pontos: o primeiro “é não deixar jamais um domingo sem um encontro com Cristo Ressuscitado na Eucaristia; isso não é um fardo, mas a luz para toda a semana”.

O segundo é “não começar nem terminar jamais um dia sem pelo menos um breve contato com Deus”.

E o terceiro, “no caminho da nossa vida, seguir os “sinais do caminho” que Deus nos comunicou no Decálogo lido com Cristo, que é simplesmente a definição da caridade em determinadas situações”.

“Penso que esta é a verdadeira simplicidade e grandeza da vida de santidade: o encontro com o Ressuscitado no domingo; o contato com Deus no começo e no final do dia; seguir, nas decisões, os ‘sinais do caminho’ que Deus nos comunicou, que são apenas formas da caridade.”

“Daí que a caridade para com Deus e para com o próximo sejam o sinal distintivo de um verdadeiro discípulo de Cristo. Esta é a verdadeira simplicidade, grandeza e profundidade da vida cristã, do ser santos”, acrescentou.

“Quão grande, bela e também simples é a vocação cristã vista a partir desta luz! – exclamou o Papa. Todos nós somos chamados à santidade: é a própria medida da vida cristã.”

“Eu gostaria de convidar todos vós a abrir-vos à ação do Espírito Santo, que transforma as nossas vidas, para ser, também nós, como peças do grande mosaico de santidade que Deus vai criando na história, de modo que o rosto de Cristo brilhe na plenitude do seu fulgor.”

Por isso, exortou, “não tenhamos medo de dirigir o olhar para o alto, em direção às alturas de Deus; não tenhamos medo de que Deus nos peça muito, mas deixemo-nos guiar, em todas as atividades da vida diária, pela sua Palavra, ainda que nos sintamos pobres, inadequados, pecadores: será Ele quem nos transformará segundo o seu amor”.

Os santos, afirmou o Papa, “nos dizem que percorrer esse caminho é possível para todos. Em todas as épocas da história da Igreja, em todas as latitudes da geografia no mundo, os santos pertencem a todas as idades e condições de vida, são rostos verdadeiros de todos os povos, línguas e nações”.

Em sua opinião, “muitos santos, nem todos, são verdadeiras estrelas no firmamento da história”, e não só “os grandes santos que eu amo e conheço bem”, mas também “os santos simples, ou seja, as pessoas boas que vejo na minha vida, que nunca serão canonizadas”.

“São pessoas normais, por assim dizer, sem um heroísmo visível, mas, na sua bondade de cada dia, vejo a verdade da fé. Essa bondade, que amadureceram na fé da Igreja, é a apologia segura do cristianismo e o sinal de onde está a verdade”, concluiu.
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A ética religiosa da sexualidade

Amálgama
por Fernando da Mota Lima – Bertrand Russell foi provavelmente o filósofo que no decorrer do século XX mais tenazmente combateu a religião. Melhor dizendo, mais combateu o Cristianismo, que é a tradição religiosa hegemônica no Ocidente. Nisso, como em tanto mais, Russell renovou nossa memória de Voltaire, o mais virulento anticlerical dentre os grandes secularistas do Iluminismo. Assistimos hoje a uma renovação da crítica à religião em geral, não apenas ao Cristianismo e suas múltiplas ramificações.

A crítica procede de fontes filosóficas e sobretudo científicas. Procede ainda da aceleração dos processos de secularização e racionalização impostos pelo desenvolvimento da ciência e do capitalismo que, tudo convertendo em mercadoria, tende a suprimir o sagrado do horizonte da cultura contemporânea. É certo que o sagrado se refaz noutras formas, o que leva alguns estudiosos a postularem um reencantamento do mundo em oposição a Max Weber, que previu o desencantamento do mundo como consequência dos processos de secularização e racionalização acima mencionados.

Em meio a essas turbulências profundas que tanto desnorteiam nossos referenciais culturais e éticos, o Cristianismo – para não falar das religiões marginais aos processos de modernização do Ocidente – persiste no seu combate à sexualidade. Em meio a uma atmosfera de franca permissividade sexual, sobretudo em países como o Brasil, a religião mobiliza ainda e sempre suas armas enraizadas na tradição, saturada de componentes patriarcais, para vetar a legalização do aborto, o casamento dos padres católicos, a prática sexual independente do casamento, a legitimidade dos direitos da mulher e dos homossexuais etc. Como não tenho nenhuma competência religiosa e muito menos teológica para examinar este problema, atrevo-me a sugerir algumas razões históricas passíveis de lançarem alguma luz sobre os fundamentos da ética sexual adotada pelo Cristianismo.

Em sua monumental História da filosofia ocidental, Bertrand Russell dedica um capítulo aos doutores do Catolicismo: Santo Ambrósio, São Jerônimo e Santo Agostinho. Além de contemporâneos, importa ressaltar o fato de que testemunharam a decadência do império romano e as invasões bárbaras que mergulharam o Ocidente em séculos de atraso. Embora vivendo uma das mais profundas crises da história da humanidade, todos deram mais ênfase à luta contra o pecado, em particular o pecado da carne, além de velarem pela preservação da virgindade feminina. Mesmo Santo Ambrósio, que se distinguiu antes de tudo na luta travada entre a Igreja e o Estado, conferiu prioridade à ética de natureza sexual.

Como grande historiador da filosofia, Bertrand Russell procura compreender essa realidade dentro das condições próprias à época em que os doutores sagrados do Catolicismo viveram. Ainda assim, não contém o espanto com que narra a obsessão dos santos com os pecados da carne. É interessante salientar que a obsessão com os pecados da carne impõe vetos e punições sobretudo à mulher, que desde o mito da expulsão do Éden é representada como um ser seduzido pela carne, além de representar uma permanente ameaça para o homem. Considerando que o Cristianismo foi forjado em sociedades agrárias de rigorosa orientação patriarcal, nada há de surpreendente no fato que acabo de assinalar.

Santo Agostinho, como Santo Ambrósio e São Jerônimo, coloca o pecado no centro de sua concepção teológica. Quando irrompe a Reforma Protestante, Lutero herda da teologia agostiniana a mesma obsessão com o pecado. Seguem-no nessa tendência todos que lideraram ou seguiram as diferentes seitas de inspiração protestante, sobretudo as puritanas. Bastaria observar, nessa perspectiva, filmes como A letra escarlate e As bruxas de Salem, o primeiro baseado no romance homônimo de Nathaniel Hawthorne, o segundo numa peça de Arthur Miller.

Suponho que a tradição acima grosseiramente esboçada explica a leniência, quando não cumplicidade, com que o Catolicismo, notadamente brasileiro, considera o mal corrente no universo da política, por exemplo. Confesso ter ainda grande dificuldade para compreender tamanha disparidade do ponto de vista racional. Mesmo admitindo-se que uma pessoa peca ao adotar práticas sexuais contrárias a nossas crenças religiosas, o mal em que incorre afeta apenas a ela, ou a quem com ela livremente se envolva. Ora, o mal praticado por um político corrupto, por exemplo, é de consequências incomparavelmente mais graves. O que representa o “pecado” de um homossexual, o “pecado” de uma adúltera, ou de uma mulher que incorre no crime do aborto, comparados aos bandidos que saqueiam cofres públicos privando milhares de brasileiros de serviços sociais necessários à sua sobrevivência, à possibilidade de uma vida elementarmente decente?

Enquanto bandidos e corruptos saqueiam impunemente recursos públicos colossais, as necessidades sociais básicas vivem entregues à ineficiência e à carência que impõem terrível opressão cotidiana a grande parte da população. Em suma, que mal representa para o mundo um “pecador” da carne comparado à corrupção endêmica das práticas políticas que envenenam nossas relações sociais? No entanto, a maior parte dos religiosos deplora e quando pode persegue e pune apenas a quem cede às tentações da carne.

Quando inverto o lugar comum afirmando que a carne é forte, não pretendo com isso implicitamente aprovar a sexualidade infrene dominante na cultura do presente. Meu intento é apenas denunciar o absurdo de qualquer ordenação ética da sexualidade que incorra na insensatez de determinar a supressão de forças que são parte da nossa natureza. Foi com esse propósito que num outro artigo aludi à inoperância de uma ética religiosa orientada para a supressão da sexualidade. Disse e reitero que isso é pura perda de tempo. Toda a história da humanidade, mesmo nos períodos de mais profunda e contrita religiosidade, testemunha a presença de nossa energia libidinal que, como escrevi, pode ser em certo grau reprimida, noutro sublimada, mas nunca suprimida.

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terça-feira, 13 de abril de 2010

Secretário de Estado do Vaticano relaciona pedofilia à homossexualidade

Cardeal disse a uma rádio do Chile que este é 'o verdadeiro problema' dos casos de abuso
13 de abril de 2010 | 8h 54

Agência Estado e Associated Press

SANTIAGO - O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, disse na segunda-feira, 12, no Chile, que os múltiplos casos de pedofilia envolvendo membros da Igreja Católica estão vinculados à homossexualidade, e não ao celibato sacerdotal. No Chile, um dos casos mais famosos de pedofilia envolvia um sacerdote que mantinha relações sexuais com meninas adolescentes.

"Demonstraram muitos psicólogos, muitos psiquiatras, que não há relação entre celibato e pedofilia, mas muitos demonstraram - e disseram isso recentemente - que há uma relação entre homossexualidade e pedofilia", afirmou Bertone. "Isso é verdade, este é o problema", disse, em declarações transmitidas pela Rádio Cooperativa.

Em visita ao país sul-americano, Bertone abriu a Assembleia Plenária da Conferência Episcopal chilena. O religioso reiterou que a Igreja Católica nunca impediu investigações de pedofilia envolvendo padres e bispos.

Reações

A fala de Bertone levou a reações fortes por parte dos defensores dos direitos dos homossexuais no Chile. "Nem Bertone nem o Vaticano têm a autoridade moral" para oferecer lições de sexualidade, afirmou Rolando Jiménez, presidente do Movimento para a Integração e Liberação Homossexual no Chile.

Jiménez também notou que não há um estudo bem elaborado respaldando as declarações do cardeal. "É uma estratégia perversa do Vaticano para fugir de sua própria responsabilidade", afirmou ele.

Pelo menos um dos pedófilos mais famosos da Igreja Católica do Chile atacava meninas - uma das jovens ficou grávida. O arcebispo de Santiago recebeu muitas queixas sobre o sacerdote José Andrés Aguirre por parte de famílias preocupadas com suas filhas. Apesar disso, o sacerdote, conhecido por seus paroquianos como o padre Tato, manteve contato com um grupo de meninas católicas da cidade.

Depois, por causa das acusações, Aguirre foi enviado em duas ocasiões para fora do Chile, e acabou condenado a 12 anos de prisão por abusar de dez jovens. Uma delas, identificada como Paula, disse que começou a ter relações sexuais com o sacerdote aos 16 anos e continuou até os 20 anos.

Paula disse ao jornal chileno La Nación ter pensado que não havia problemas em fazer sexo com ele, porque quando relatou o caso a outros sacerdotes, na confissão, eles disseram para ela orar e que isso era tudo. A jovem afirmou que eles sabiam e alguns supunham que se tratava do padre Tato, mas nenhum a ajudou.

Renúncia

Um desses sacerdotes procurados por Paula foi o arcebispo Francisco José Cox, também envolvido em acusações de pedofilia. Arcebispo da cidade de La Serena, 470 quilômetros ao norte de Santiago, Cox foi obrigado a renunciar em 1997. Foi transferido para Santiago, depois para Roma, em seguida para a Colômbia e agora está recluso na Alemanha.

Em 2002, o cardeal arcebispo de Santiago, Francisco Javier Errázuriz, confirmou que Cox foi transferido por "condutas impróprias" com menores.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Vaticano divulga guia de conduta sobre abusos de padres

12 de abril de 2010 | 11h 19
AE - Agência Estado

O Vaticano publicou hoje um guia com normas da Santa Sé sobre como se deve lidar com casos de abuso sexual. O material é uma tentativa de rebater as críticas sobre a resposta do papa Bento XVI à crise na Igreja Católica, após o surgimento de vários casos de abusos cometidos por religiosos em diversos países.

O guia foi divulgado hoje no site do Vaticano. O texto afirma que os bispos locais devem investigar "toda alegação de abuso sexual de um menor por um clérigo". Além disso, o bispo deve informar sobre as alegações que tiverem "uma aparência de verdade" à Congregação para a Doutrina da Fé, no Vaticano.

O documento é baseado em uma revisão das leis do Vaticano sobre abusos sexuais, realizada em 2001 sob o comando do então cardeal Joseph Ratzinger, na época chefe da Congregação para a Doutrina da Fé e hoje, papa.

Ao longo do mês passado, os críticos acusaram o Vaticano de conduzir de modo vagaroso e ineficaz as investigações sobre supostos abusos sexuais cometidos por padres. Em alguns casos, a Santa Sé levou anos para afastar padres pedófilos, em meio a apelações internas da Igreja, segundo documentos internos. Funcionários do Vaticano, porém, afirmam que a revisão de 2001 ajudou a apressar esses processos.

Durante o estágio preliminar da investigação, os bispos podem impor "medidas de precaução" para salvaguardar suas dioceses, segundo o guia. O texto nota que os bispos podem restringir "as atividades de qualquer padre em suas dioceses".

O Vaticano lembra ainda que os bispos devem "sempre" seguir as leis civis, informando as autoridades responsáveis sobre abusos sexuais. Caso um padre confesse ter cometido abusos sexuais, ele pode ser afastado de suas funções públicas e "viver uma vida de oração e penitência".


Irrelevante

O guia não deve reduzir o descontentamento de algumas vítimas, segundo as quais o Vaticano não age como deveria diante desses casos. Algumas vítimas pedem que o Vaticano aja duramente contra bispos e cardeais que não informaram as autoridades civis sobre abusos sexuais.

"As políticas da Igreja, estejam na internet ou não, são em grande parte irrelevantes. Os bispos respondem a praticamente nenhuma delas e podem facilmente ignorá-las", afirmou Barbara Blaine, integrante da Rede de Sobreviventes dos Abusados por Padres. "Nós temos que enfocar o comportamento, não as políticas, e as ações, não as palavras." As informações são da Dow Jones.

domingo, 11 de abril de 2010

Carta mostraria que Bento 16 resistiu a afastar padre acusado de abuso

11/4/2010 07:18:16

Jornalfeirahoje

Uma agência de notícias divulgou nesta sexta-feira uma carta, datada de 1985, supostamente assinada pelo papa Bento 16 que envolve o pontífice em mais um caso de abuso sexual cometido por padres católicos contra crianças.

O papa já tem se encontrado com vítimas de abusos.

A agência de notícias Associated Press afirmou que teve acesso à carta, assinada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, posto ocupado por Bento 16 antes de ser papa. Na missiva, ele resiste à ideia de destituir das funções sacerdotais o padre americano Stephen Kiesle, acusado de abuso sexual.
A AP afirmou que o Vaticano confirmou a assinatura do cardeal na carta.

Segundo a agência, o então cardeal Ratzinger afirmou na carta que o "bem da Igreja universal" precisava ser levado em conta em um ato como a destituição das funções sacerdotais.

No entanto, a agência informou que o porta-voz da Vaticano, reverendo Federico Lombardi, disse que "não é estranho que existam documentos com a assinatura do cardeal Ratzinger".

"A assessoria de imprensa não acredita que seja necessário responder a cada um dos documentos tirados de contexto, referentes a situações legais particulares", afirmou.

A Igreja Católica vem sendo abalada por várias acusações de abuso vindas de diversos países europeus. As acusações são referentes a casos ocorridos há décadas na Alemanha (país natal do papa), Irlanda, Suíça, Holanda e Áustria.

Três anos

Segundo a AP o padre Kiesle foi sentenciado a três anos de liberdade condicional em 1978 por conduta indecente com dois meninos em San Francisco.

A AP informou que a diocese de Oakland recomendou a retirada de Kiesle em 1981 mas ele não deixou de ser sacerdote até o ano de 1987.

O cardeal Ratzinger assumiu a Congregação para a Doutrina da Fé, que lida com os casos de abuso sexual, em 1981.

A AP afirma que a carta, escrita em latim, mostra o cardeal Ratzinger afirmando que a destituição de Kiesle teria um "significado grave" e precisaria de uma análise cuidadosa.

Ratzinger ainda recomendaria na carta "o máximo de cuidado paternal possível" para Kiesle.

Kiesle foi sentenciado a seis anos de prisão em 2004 depois de admitir ter molestado uma menina em 1995. Ele atualmente tem 63 anos e está registrado na lista de criminosos da Califórnia.

Encontro com vítimas

O papa já tem se encontrado com vítimas de abusos

AInda nesta sexta-feira, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que o papa Bento 16 deseja se encontrar com vítimas de abusos sexuais cometidos por padres católicos.

Em uma entrevista à rádio do Vaticano, Lombardi afirmou que muitas vítimas estariam buscando ajuda moral, e não financeira.

"O papa escreveu para dizer que está disponível para novos encontros" com as vítimas, disse ele.

"Além da atenção que devemos dar às vítimas, precisamos buscar uma cooperação com as autoridades penais e judiciais relevantes, de acordo com as leis de cada país."

"A transparência e o rigor se impõem como necessidades urgentes", finalizou.

O papa Bento 16 já encontrou vítimas de abusos tanto no Vaticano como durante visitas aos Estados Unidos e à Austrália.

Em março, Bento 16 escreveu uma carta aos irlandeses pedindo perdão pelos abusos e dizendo que “erros sérios” foram cometidos por bispos.

Mas o Vaticano também tem tentado minimizar a crise, acusando a imprensa de exagerar o problema.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Morro do Bumba

Lá vem a nuvem negra, trazendo a morte
levando barracos, que feito papel
flutuam na água que cai do céu
e pobres sem barco, sem rumo e sem sorte.

Lá vem a nuvem negra, que chora e não para
Por essa choupana no alto do morro
Erguida no lixo, desmancha no jorro
Desliza no barro, e a morte encara.

Lá vem a nuvem negra que só mata pobre
Que por não ter terra, vive pendurado
sempre fustigado por gente tão nobre
Mas hoje foi visto, pois foi soterrado.
(Josué Dantas)

Papa Bento XVI envolvido em novo escândalo de má condução de denúncias de pedofilia

Crise na Igreja

Publicada em 09/04/2010 às 18h21m
O Globo

Carta em que se vê a assinatura de Ratzinger - AP

CIDADE DO VATICANO - Novas denúncias que envolveriam diretamente o Papa Bento XVI e outras autoridades da Igreja Católica, na condução dos casos de acusados de pedofilia, foram divulgadas hoje em distintos países, entre os quais Alemanha e EUA. De acordo com o jornal americano "The Washington Post", Bento XVI, quando ainda era cardeal, em 1985, desaconselhou que um sacerdote californiano, acusado de ter abusado de menores, fosse reduzido ao estado laico.

A publicação cita fragmentos de uma carta de Joseph Ratzinger, na qual o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé expressou sua preocupação pelas consequências que a remoção do sacerdote poderia ter "para o bem a Igreja universal". A carta, dirigida à diocese de Oakland, fazia parte de uma série de correspondências que durante anos discutiram os crimes do padre Stephen Kiesle. O Vaticano confirmou que a assinatura presente no texto seria a de Ratzinger.

Já o "The New York" Times publicou nesta sexta-feira que, em 1998, o Vaticano teria ordenado que o processo canônico contra o sacerdote Lawrence Murphy, acusado de ter abusado de 200 crianças surdas no estado de Wisconsin, "fosse paralisado". De acordo com o padre Thomas Brundage, ex-vigário judicial da diocese de Milwaukee, o processo canônico [dos tribunais eclesiásticos] foi "congelado" devido ao "frágil" estado de saúde do acusado.

Anteriormente, a Santa Sé já havia alegado que, quando soube dos casos, Murphy já era "idoso, estava em precárias condições de saúde, vivia em isolamento e por mais de 20 anos não tinham sido denunciados outros abusos".

Também nesta sexta-feira foi divulgado no Canadá que, nos anos 90, a Igreja local, junto ao Vaticano, tentou manter segredo sobre o caso de um religioso acusado e, depois condenado, por atos de pedofilia. O caso foi reconstituído pelo "The Globe and Mail", que relata a situação de Bernard Prince, que fora enviado a Roma após ter sido acusado em seu país.
Bento XVI acena durante missa no Vaticano - AP

O sacerdote, citado pela polícia canadense por ter abusado de pelo menos 13 jovens entre 1964 e 1984 na diocese de Pembroke, foi considerado culpado e condenado à prisão em 2005, mas ainda não cumpriu sua pena.

Na terra natal do Papa foi divulgado outro episódio envolvendo um membro da Igreja Católica. Desta vez, o bispado da cidade alemã de Erfur, leste do país, informou ter denunciado às autoridades civis um sacerdote que admitiu ter cometido abusos sexuais contra quatro jovens entre 1980 e 1996 na localidade de Miltenberg.

Em nota, a diocese admitiu também que foi "um erro" ter enviado o sacerdote à atividade pastoral à prisão para menores de Ichtershausen entre 2004 e 2006.

Por outro lado, na Holanda, foi noticiado que três religiosos acusados de cometerem abusos contra menores foram suspensos. Estas são as primeiras medidas adotadas após as autoridades eclesiásticas desse país confrontarem casos de pedofilia, que foram cometidos entre as décadas de 1950 e 1970.

De acordo com o padre Herman Sprock, os denunciados, que ainda desempenhavam atividades vinculadas aos jovens, aceitaram suas suspensões.

Ainda nesta sexta-feira, o porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, anunciou a divulgação das diretrizes da Santa Sé em relação às acusações. Segundo ele, a Santa Sé deverá divulgar em breve quais são as orientações canônicas destinadas aos bispos que se deparem com denúncias de pedofilia. As informações são da agência Ansa.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Frei Pizzaballa: “Situação na Terra Santa não é boa”

Jerusalém, 07 abr (RV) – O Guardião da Terra Santa, Frei Pierbattista Pizzaballa, chama a atenção para a deterioração nas relações entre israelenses e palestinos na Terra Santa, e mais em geral em todo o Oriente Médio, onde se verifica um clima seguramente de tensão e também de cansaço.

Entrevistado pela Rádio Vaticano sobre como se está vivendo esta Páscoa em Jerusalém e nos Lugares Santos, o religioso afirma que a situação não é boa, acrescentando não prever, infelizmente, em breve ou a longo prazo, grandes mudanças em sentido positivo.

Frei Pizzaballa disse ser necessária uma pressão internacional, um mínimo de maior estabilidade. “A esperança – disse ainda – é de que Jesus que morre e ressurge justamente aqui em Jerusalém, justamente aqui em Jerusalém possa também convidar todos os homens que vivem aqui a viverem de modo mais reconciliado e mais sereno entre si.”

Referindo-se sobre a mensagem pascal que parte da Terra Santa para os cristãos, Frei Pizzaballa acrescentou: “Não é uma memória do que aconteceu dois mil anos atrás justamente aqui. É também seguramente isso, mas é uma incumbência, um impulso aonde Jesus nos precede, e nos precede em todos os lugares na Galileia, como no mundo inteiro.

A mensagem da Páscoa é justamente esta: é uma mensagem de alegria e de paz; Jesus entra no cenáculo e diz aos discípulos assustados: “A paz esteja convosco”. (RL)

Fonte: Rádio Vaticano

Você é tudo que sonhei

Querida (nome)

No teu dia, quero fazer uma homenagem diferente. No Dia da Mulher não vou apenas destacar suas boas qualidades, vou destacar os seus pequenos defeitos, as sutilezas que mostram suas falhas.
Você é aquela menina que deixa a toalha molhada do banho mofando no cabide, que não deixa de lavar sua calcinha com o próprio sabonete e depois a deixa pendurada no registro do chuveiro, que apronta um falatório porque eu estendo as pernas na mesinha de centro para ver televisão.
Que adora discursos feministas para apontar pequenas falhas de seu parceiro, e parece intolerante com meus mais leves deslizes de caráter. Mas na verdade é adorável com tudo o que representa o nosso amor.
Sei que me ama e isso devia bastar, principalmente quando vamos comemorar o Dia da Mulher. Agora quero lembrar apenas suas boas qualidades. É uma mulher lutadora, trabalha duro, mas não deixa passar sem mencionar o velho chavão da jornada dupla.
Embora a gente tenha uma secretária doméstica (eufemismo) sei que sua vida não é fácil. Fica muito menos na cama do que eu, pois tem que levantar uma hora antes pra cuidar da maquiagem. Além do trabalho, tem ginástica, cabeleireiro, terapeuta, e outros tantos compromissos.
Reconheço todo o seu esforço. Só não posso falar para não magoar sua suscetibilidade, porque senão diria que esse esforço todo é para agradar seu parceirinho aqui. Você é tudo que eu sonhei, moderna e atual, linda, sedutora e inteligente. Não poderia viver sem você. Parabéns a você no Dia Internacional da Mulher. Beijos

(assinatura)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Como cair no recurso ao estereótipo sem dar conta

A homilia de Raniero Cantalamessa na Sexta-Feira Santa (2 de Abril) provocou aquilo que ela própria queria evitar: violência. Verbal, mas violência.

No Domingo, o “Diário de Notícias” titulava “Críticas judaicas abrem nova crise para o Vaticano” (4 de Abril). E o “Público”: “Rabis e vítimas indignadas com comparação ao anti-semitismo”. Na entrada, este último (texto de Ana Fonseca Pereira) afirma: “Padre Cantalamessa equiparou ataques à Igreja com perseguição aos judeus. Polémica adensa uma crise que ensombra esta Páscoa”.

Comparou mesmo? Talvez. Mas quem fez primeiro a comparação foi um judeu.

Se eu me sentisse perseguido, como muitos responsáveis da Igreja se dizem sentir, e se tivesse recebido um carta de alguém que pertence a um povo que foi a maior vítima do século XX, julgo que a usaria, como fez Cantalamessa. Não reivindicaria para mim tal estatuto de vítima – nem ele o fez. O Holocausto, o cúmulo do anti-semitismo, foi algo inominável e não é invocável para autodefesa por quem nele não participou. Mas se um elemento do povo judeu adverte para mecanismos semelhantes aos do anti-semitismo, de “recurso ao estereótipo” e de “passagem da responsabilidade pessoal para a colectividade”, nos tempos de hoje, em relação à Igreja, não poderei eu usar essas palavras?

O melhor é ler que o pregador do Papa disse (versão brasileira da Zenit, aqui):

«Por uma rara coincidência, neste ano nossa Páscoa cai na mesma semana da Páscoa judaica, que é a matriz na qual esta se constituiu. Isso nos estimula a voltar nosso pensamento aos nossos irmãos judeus. Estes sabem por experiência própria o que significa ser vítima da violência coletiva e também estão aptos a reconhecer os sintomas recorrentes. Recebi nestes dias uma carta de um amigo judeu e, com sua permissão, compartilho um trecho convosco. Dizia:

“Tenho acompanhado com desgosto o ataque violento e concêntrico contra a Igreja, o Papa e todos os féis do mundo inteiro. O recurso ao estereótipo, a passagem da responsabilidade pessoal para a coletividade me lembram os aspectos mais vergonhosos do anti-semitismo. Desejo, portanto, expressar à ti pessoalmente, ao Papa e à toda Igreja minha solidariedade de judeu do diálogo e de todos aqueles que no mundo hebraico (e são muitos) compartilham destes sentimentos de fraternidade. A nossa Páscoa e a vossa têm indubitáveis elementos de alteridade, mas ambas vivem na esperança messiânica que seguramente reunirá no amor do Pai comum. Felicidades a ti e a todos os católicos e Boa Páscoa”».

A citação no final de um belíssimo texto contra a violência (de como com a morte de Jesus se ultrapassa a violência que á alma de um certo tipo de sagrado) transformou-se em mais um episódio de violência mediática. Chamou-se “obsceno”, “inapropriado” e “moralmente errado” ao sermão de Cantalamessa (via “Público”), quando as palavras são de um judeu. Foi imprudente Cantalamessa? Dizer que sim é admitir que a pressão mediática nos priva de liberdade.

A reacção ao sermão por parte de judeus e de vítimas de abusos, apesar de o porta-voz do Vaticano ter vindo dizer que havia palavras que podiam ser mal interpretadas, revela que a violência verbal está latente na nossa sociedade. Como já nem se olha aos factos e aos contextos, como já não se distingue e muito se confunde, começo a pensar que a Igreja está mesmo a ser perseguida (mas nada desculpa os abusos). Ou pelo menos é um alvo fácil para quem quer fazer pontaria.
Fonte: Tribo de Jacob

terça-feira, 6 de abril de 2010

Isabella Nardoni

Os monstros estão a janela
Tendo nos dentes a frieza
Pequena, frágil e indefesa
Jogaram a pequena Bela

E aquele anjinho caindo
Encontrou o solo frio
A linda Bela caiu
E os monstros estão sorrindo

Outros anjos a cercaram
Vendo o anjinho, imploraram
Providencia divina

Aos monstros encarceraram
Com a justiça vingaram
Aquela linda menina
(Josué Dantas)

Dois olhares sobre Chico Xavier, o filme

Um forte indicativo para se medir o potencial de público total de um filme é o seu desempenho no primeiro final de semana em cartaz. E como era esperado, Chico Xavier largou muito bem, com 590 mil espectadores. Marca que fez o diretor Daniel Filho superar a si, pois o filme nacional de maior sucesso nos primeiros três dias de exibição desde a retomada da produção nacional, no começo dos anos 1990 é  Se Eu Fosse Você 2, com 570 mil espectadores nos três primeiros dias de exibição - com um 6 milhões de espectadores, a comédia é o título campeão de público da retomada.
A cinebiografia do médium espírita brasileiro tem a seu favor o interesse de um público-alvo considerável - a ver que o modesto, em orçamento e qualidade da dramaturgia, Bezerra de Menezes, sobre outra figura simbólica do espiritismo nacional, atingiu um público superior a 500 mil.
Confira abaixo duas impressões sobre o filme entre a equipe do Segundo Caderno:

A missão do homem e a missão do filme
Tatiana Tavares
Já tinha lido o livro do jornalista Marcel Souto Maior (As Vidas de Chico Xavier, editora Planeta) quando fiquei sabendo que o diretor Daniel Filho faria um filme sobre Chico Xavier baseado nessa obra. Como seguidora do espiritismo, sabia que o filme não me contaria nada que eu ainda não soubesse sobre a vida do médium mineiro, mas acreditava que poderia fazer um bom panorama sobre a vida de Chico, contribuindo assim para a que foi sabidamente sua maior missão, a divulgação da religião (ou doutrina, como queiram) espírita.
Seria impossível, em pouco mais de duas horas, narrar uma vida inteira de solidariedade e de caridade, mas o roteirista Marcos Bernstein (de Central do Brasil) e o diretor Daniel Filho (de Se Eu Fosse Você) conseguiram fazer belos recortes da vida de Chico como homem e como médium, evitando transformá-lo em herói.
Se quisesse, o diretor poderia ter feito um filme para chorar. Bastaria ter se aprofundado nas precárias condições em que vivia Chico, nas dificuldades da infância - que foram muito maiores do que as mostradas pelo longa - e nas caminhadas que fazia para levar comida a pessoas ainda mais pobres do que ele. Mas Daniel Filho escolheu o caminho do relato e contou passagens importantes da vida do médium - pecou apenas ao não ter se detido em polêmicas que rondaram a vida de Chico, como a que envolveu o escritor Humberto de Campos, psicografado no livro Crônicas de Além Túmulo (Ed. Federação Espírita do Brasil).
Mesmo misturando fatos que ocorreram em momentos diferentes - os pais que buscam respostas sobre a morte do filho, na verdade, nada tinham a ver com o diretor do programa Pinga Fogo, da TV Tupi, que serviu de base para contar a história -, o filme foi fiel ao mostrar um Chico consolador, que recebia mães e pais em busca de notícias dos filhos mortos (desencarnados, segundo a doutrina espírita). O livro Jovens no Além (Grupo Espírita Emmanuel), por exemplo, traz uma série de cartas de jovens a seus pais psicografadas pelo médium. Para quem não conhece a história do espírita, parece evidente claro que ele não era um curandeiro ou alguém que fazia milagres. O objetivo do homem de Pedro Leopoldo (MG) era, por meio do espiritismo, acolher quem estivesse a procura de conforto.
Vendo as salas de cinema lotadas no primeiro fim de semana de exibição de Chico Xavier, fica claro que a missão de Chico Xavier de divulgar o espiritismo continua mesmo depois de sua morte - a doutrina, agora, leva milhares de pessoas ao cinema. Talvez essas pessoas também busquem o consolo da palavra espírita. E então Chico Xavier terá tido ainda mais sucesso. Afinal, se a missão de Allan Kardec foi codificar a doutrina espírita, a de Chico Xavier foi levar essa mensagem para o mundo inteiro.
Quando o mito é maior do que a vida
Roger Lerina
Um problema crucial em cinebiografias de grandes personalidades é separar o personagem do filme - uma coisa é a figura perfilada, outra é a obra que narra sua trajetória. Confundir um com outro, permitindo que o filme seja contaminado pelas qualidades do filmado, é um erro comum, que muitas vezes poupa uma produção de um julgamento mais crítico,
blindada que está pela empatia de seu biografado.
Chico Xavier certamente vai tirar partido da enorme popularidade do mito para garantir um público na casa das centenas de milhares de espectadores, a despeito de sua eficácia como narrativa cinematográfica. O longa do diretor Daniel Filho foi talhado para emocionar as massas, buscando por um lado destacar as capacidades mediúnicas de Chico Xavier e suas visões de espíritos, por outro humanizar o protagonista, confrontando–o com céticos e ressaltando seus sofrimentos pessoais e seu bom humor.
O roteiro de Marcos Bernstein - o mesmo de Central do Brasil (1998) - acerta ao fornecer um eixo para a história: os episódios da vida de Chico Xavier se sucedem entremeados à recriação de uma célebre entrevista concedida pelo médium. Outro achado dramático é o destaque ao casal interpretado por Tony Ramos e Christiane Torloni, cujo filho morreu de maneira estúpida - a mãe acredita na capacidade de Xavier de falar com o rapaz morto, o pai duvida.
Estabelecida a forma como Chico Xavier vai contar a trajetória de seu protagonista, resta definir o tom dessa narrativa. E é aí que o longa de Daniel Filho carrega nas tintas e afasta o público que não é entusiasta a priori do médium e de sua obra. A fim de priorizar os aspectos sentimentais dos episódios da vida de Chico Xavier, o filme não desenvolve a psicologia dos personagens ou os conflitos que eventualmente são colocados em cena - o que vale é a sensação imediata, a identificação automática do público com imagens de solidariedade, sofrimento, superação, perda, devoção, bonomia.
Se o roteiro é eficiente do ponto de vista de estrutura, é falho quanto aos diálogos, excessivamente óbvios ou artificiais - o apelo ao coração é sublinhado pela trilha sonora grandiloquente de Egberto Gismonti.
Competente diretor de atores, Daniel Filho arranca uma interpretação na medida certa de Nelson Xavier - espantosamente parecido com Chico Xavier em seus últimos anos e especialmente eficaz nas cenas de humor. O mesmo não se pode dizer de Ângelo Antônio, preso à representação física um tanto caricata do médium quando mais novo, e do ator André Dias, involuntariamente risível encarnando o espírito Emmanuel. As boas atuações de Tony Ramos e Christiane Torloni também são vítimas desse compromisso com a sedução pela emoção: o interessante conflito do casal descamba para uma catarse que afoga em lágrimas qualquer reflexão sobre o filme.