Atribui-se a William Shakespeare uma frase preciosa e profunda: “É melhor ser rei do teu silêncio que escravo das tuas palavras”. Tal raciocínio aponta que, a benefício nosso, calar-se é também um remédio para a alma.
Associamos à ideia de poder a necessidade de argumentar sobre algo. Não raro, nos consideramos donos da razão chegando a alegar que temos o direito de opinar e ainda exigindo respeito ao nosso ponto de vista. O mesmo não fazemos em relação ao outro; basta que ele opine algo para que já nos sintamos no dever de responder à altura e, mais que isso, calar-lhe com a nossa ideia.
Donde parte a presunção que nos assola, quando agimos desta forma? O que move essa pseudonecessidade nossa de opinar, argumentar, discordar e mesmo ser agressivos apelando para expressões chulas e vilipendiosas? Presunçosamente, talvez até igualando-me aos opinadores profissionais, diria tratar-se de uma excreção do pensamento egoísta advinda do eucentrismo, quando a criatura acha que tudo deve submeter-se ao seu modo de pensar.
Sabe-se que a palavra edifica, educa, consola e ampara, mas também o imediatamente contrário. Quantas discórdias, situações embaraçosas, embates e até mesmo guerras tiveram início nas palavras mal articuladas, estruturadas tão somente num sentimento de ódio, quiçá mesmo de covardia? Percebemos de modo muito particular o desespero da criatura humana em transferir para os outros, e para qualquer um, a causa de suas frustrações e, consequentemente, o fel de suas amarguras.
Quantos opinadores reclamando de preconceito e sentindo-se vítimas de um sistema quando, a bem da verdade, elas são as mais preconceituosas e psicologicamente desestruturadas, uma vez que ainda não conseguiram aceitar a si mesmas e esperam dos outros esse comportamento. Aliás, há quem veja cabelo em casca de ovo, quando, nunca tendo sido vítima de preconceito, toma a dor dos outros e ataca indiscriminadamente generalizando o comportamento de uns.
Sim o erro, a corrupção, o preconceito, a violência, o desrespeito e muitas outras aberrações comportamentais e mentomorais existem e devemos pesquisar, refletir e ter opinião sobre. O que não devemos é violentar consciência alguma, desrespeitar o outro que pensa e age diferente, julgar e condenar, execrar a quem quer que seja. Na pretensa ação de expor ponto de vista sobre um assunto, poderemos, ao final das contas, ser tidos como aqueles que contribuem para o mal-estar no mundo, uma vez que, ao invés de induzir o pensar e o refletir, conduzimos ao ódio e, o pior, à vingança.
Silenciar não é ser conivente, permissivo o irresponsável. Silenciar é um ato de coragem e estratégia do bem. Se me convenço de que algo não está correto, contribuo para sua transformação de modo prático e pontual, mas nunca o agravando levando uma discussão a níveis perturbadores. Expressar um ponto de vista na hora e da forma correta, após profundas reflexões sobre o que de fato acontece, nos credencia a pessoas em condição de credibilidade, uma vez que não é a mesquinhez que nos dirige, mas o pensar calcado num preceito básico de respeito ao próximo, como um desdobramento do pensamento de Jesus que pediu amássemo-nos uns aos outros e como ele nos amou, ou seja, com a verdade, com a opinião formada, mas nunca com a violência e a agressão.
Responder a um deboche com outro, uma agressão com outra, um preconceito com outro? Que fazemos nós de diferente? O próprio Jesus foi quem questionou isso; se só agimos em clima de paz e harmonia com quem assim o age conosco, o que nos torna diferente dos mesquinhos, irresponsáveis e preconceituosos?
Joanna de Ângelis[1] valida tal pensamento quando nos afirma: “A palavra, por exemplo, é um talento, que nem todos aplicam conforme deveriam, porquanto, através dela se produzem as rixas e as brigas, as intrigas e maledicências, as infâmias e as acusações, muitas vezes culminando em guerras infernais… quando a sua finalidade é exatamente o contrário”.
Segundo André Luiz[2], “acalmar-se é acalmar os outros… a palavra cruel aumenta a força do crime”. É preciso pontuarmos as questões sem darmos margem ao sensacionalismo e à crítica que é apenas mais do mesmo, ou seja, não constrói.
Emmanuel[3], por sua vez, explica o que Shakespeare quis dizer na frase do início desse texto, quando roga “não nos esqueçamos de que nossos pensamentos, palavras, atitudes e ações constituem moldes mentais para os que nos acompanham”. Ou seja, nossa opinião impacta o outro e somos responsáveis pelo que despertamos no próximo. E, se responsáveis somos, que impactemos com o que é bom, edificante e pacificador.
A promessa de Jesus de que herdariam a Terra aqueles que fossem brandos e pacíficos é justamente nos dizendo que seremos mais ouvidos, respeitados e “seguidos” no modo de pensar, se nosso objetivo for o bem comum e nossa postura for aquela que agrega, respeita e acolhe.
[1] FRANCO, Divaldo Pereira. Em busca da verdade. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: Leal, 2009. Cap. 07.
[2] VIEIRA, Waldo. Conduta Espírita. Pelo Espírito André Luiz. 32. ed. 6. Imp. Brasília, DF: FEB, 2015. Cap. 39.
[3] XAVIER, Francisco C. Fonte Viva. Pelo Espírito Emmanuel. Rio de Janeiro: FEB, 1952. Cap. 161.
por Samuel Aguiar
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